sábado, 9 de agosto de 2008

Emir Sader: Movimentos sociais devem estabelecer alianças com o governo

Emir Sader: Movimentos sociais devem estabelecer alianças com o governo
Por: Patricia Fachin

Defensor da articulação política entre movimentos sociais e Estado, Emir Sader, filósofo e cientista político, afirma que ambos setores da sociedade devem estar interligados na construção de políticas sociais e antineoliberais, como acontece na Bolívia, no Equador, na Venezuela. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, lembrando o histórico de países como México e Argentina, ele afirma que, se os movimentos sociais não rearticularem suas relações com a política, acabarão isolados e seguirão na defensiva. Referindo-se ao Brasil, em especial ao MST e à CUT, o pesquisador alerta: “Se não conseguirem estabelecer aliança com setores deste governo, não lograrão com nenhum outro, porque a alternativa a este governo e a sua continuidade está à direita”.
Emir Sader graduou-se em Filosofia, cursou o mestrado em Filosofia Política e doutorou-se em Ciências Políticas, pela Universidade de São Paulo (USP). Na instituição, foi professor de política e filosofia. Também foi docente da Universidade de Campinas (Unicamp) e da Universidade do Chile. Professor aposentado da USP e ex-presidente da Associação Latino-Americana de Sociologia, Sader dirige o Laboratório de Políticas Públicas (LPP), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e é membro do conselho editorial do periódico inglês New Left Review.

IHU On-Line - Como compreender a criminalização dos movimentos sociais no Brasil e na América Latina?
Emir Sader - Como uma tentativa de desviar a atenção da opinião pública e o debate das reivindicações dos movimentos para suas formas de luta.

IHU On-Line - Em que o senhor fundamenta a idéia de que passamos da época de resistência para a disputa hegemônica? Qual é a participação dos movimentos sociais nesse processo?
Emir Sader - Desde a eleição de Hugo Chávez, há 10 anos, foram se elegendo sucessivamente governos que, de uma ou de outra forma, são expressões da rejeição ao neoliberalismo. A derrota dos principais governos que no continente personificaram esse tipo de política, como os de Menem, Fujimori, Fernando Henrique Cardoso, demonstram esse sentimento. Quando os movimentos sociais bolivianos quiseram responder à crise hegemônica, tiveram de fundar um partido, o MAS, para triunfar. Onde não rearticularam suas relações com a política, os movimentos sociais se isolaram e seguiram na defensiva, como nos casos do México e da Argentina, entre outros.

IHU On-Line - O senhor disse, certa vez, que não há salvação do governo sem salvação do movimento social e não há salvação dos movimentos sociais sem salvação do governo. Como ambos podem caminhar juntos na construção de um projeto democrático?
Emir Sader - Porque as políticas antineoliberais são essencialmente políticas sociais, que devem ser colocadas em prática por governos, na esfera política, mas articulados com os movimentos sociais, como acontece na Bolívia, no Equador, na Venezuela, de forma mais clara.

IHU On-Line - O senhor defende que os movimentos sociais não devem ser autônomos em relação ao Estado. Entretanto, essa dependência pode agravar o sentimento de marginalização desses movimentos, por parte do próprio Estado? Como compreender, por exemplo, o incentivo à repressão desses movimentos pelo governo gaúcho?
Emir Sader - Os movimentos sociais não devem se isolar da esfera política, buscando disputar hegemonia sob forma de força política ou aliar-se a movimentos políticos.

IHU On-Line - Qual a contribuição dos movimentos sociais na construção de uma América Latina pós-neoliberal? O senhor vislumbra essa possibilidade?
Emir Sader - Ela já existe centralmente no Equador, na Bolívia, na Venezuela.

IHU On-Line - Alguns avaliam que pela primeira vez na história, com o governo Lula, o movimento social é respeitado enquanto força política. Outros consideram que Lula joga na despolitização do movimento social. Qual é a sua opinião?
Emir Sader - Com razão, os movimentos sociais, seja o MST ou mesmo a CUT, têm várias críticas ao governo. Devem mantê-las e intensificá-las, mas estabelecer formas de aliança com os setores de esquerda do governo. Desconhecer esse elemento é fatal para o isolamento dos movimentos sociais. Se não conseguirem estabelecer aliança com setores deste governo, não lograrão com nenhum outro, porque a alternativa a este governo e a sua continuidade está à direita.

(Fonte: http://www.unisinos.br/ihuonline)

Colaboração:
Glaucio Mota
Equipe de Assessoria Diocesana da PJ

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