quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Religião, em geral, rima com canção...

R

“Num País com tanta corrupção, miséria, violência e injustiça, tanta dor e tanta fome, faltam canções católicas de cunho social.”


eligião, em geral, rima com canção. Na Índia, no Tibete, na China, na África, na Europa, no Oriente Médio, os religiosos cantam. Alguns há milhares de anos. Não é que orar e celebrar tenha que passar pelo cantar, mas passa, muitas vezes com graça, em outras, sem conteúdo e sem graça nenhuma. Depende do compositor, do músico e do cantor. Há os que estudam, lêem, pesquisam e levam a sério cada letra que cantam. E há os desavisados e desatualizados. Fazem, gravam, cantam sem jamais ter lido o que sua Igreja espera de um compositor ou de um cantor católico.

Quando qualquer um pode compor, cantar e se divulgar, se ouve também qualquer tipo de canção. Vai depender mais do disk jockey do que do bispo e do pároco. Quando a religião leva o canto a sério, seleciona-se a canção pelo conteúdo e pela forma como ela traduz o culto e a catequese daquela diocese. Gente preparada o faz. Mas quando quem seleciona demonstra conhecer pouco os documentos da sua Igreja sobre a responsabilidade do músico católico, acontece o que estamos vendo. Não entra a canção do teólogo ou do professor de Comunicação Católica, mas entra a do autor daquele grupo ou movimento que toca aquela missa ou aquele programa de rádio. É questão de grupismo e de poder, não de conteúdo da fé.

O advento da mídia para todos e de grupos religiosos com poder de mídia aumentou a chance de milhares de novas canções da linha deste grupo e de silenciar a linha do outro grupo. Tendo alguma inspiração, mas não conhecendo bem a teologia e a doutrina da sua Igreja, não são poucos os compositores religiosos amadores que chegam à mídia da sua cidade ou do seu país sem doutrina, sem teologia, sem sociologia e sem catequese. Cantam o seu testemunho pessoal de vida. É válido, mas não suficiente.

As religiões e as Igrejas deveriam exigir mais dos seus compositores e cantores. Afinal, alguns deles atingem milhares de pessoas. Na Igreja Católica, por exemplo, as normas existem, mas geralmente não são implementadas. Ainda valem mais a simpatia e o grupismo do que o conteúdo da fé. Toca-se uma canção porque é do grupo ou de um amigo e não porque traduz uma doutrina oficial. Por isso ouve-se cantar ou tocar o canto errado, na hora errada, do jeito errado, com instrumentos errados e letras que deixam a desejar. Ninguém supervisiona. Funciona mais ou menos como a casa-da-mãe-joana. Canta quem pode e é do grupo do programador e não quem sabe e tem o que dizer.

Evangelizar pelo cantoCanção de católico deveria traduzir, além da Bíblia e da liturgia do dia, os documentos papais, as encíclicas, os grandes temas do Catecismo e do Compêndio da Doutrina Social da Igreja, as declarações das conferências episcopais e os textos de grandes tratados de Teologia. Seria a forma correta de evangelizar pelo canto. Mas como exigir isso dos compositores, se eles mesmos admitem que não leram tais livros e alguns nem sequer os conhecem?

Canta-se um pouco mais a compaixão e a solidariedade sem abandonar o louvor. Isso é bíblico. Quem lê os salmos sabe o que estou falando! Num país com tanta corrupção, miséria, violência e injustiça, tanta dor e tanta fome, faltam canções católicas de cunho social. De cada dez canções, nove são de louvor. Uma propõe a solidariedade católica que é tão relevante aos papas e bispos. E, dependendo do disk jockey e da sua linha pastoral, nem é tocada. Quem seleciona as canções prefere o louvor. Os shows seguem a mesma linha. Nove de louvor e um sobre a dor humana. Será que acham que é pecado e falta de espiritualidade alguém propor mudanças políticas e sociais no seu país e cantar em nome do povo que sofre? Ligue sua emissora e seu programa católico preferido e preste atenção nas canções escolhidas. Quase não falam dos problemas humanos. Os papas e os bispos já falaram. Os cantores e os compositores católicos ou não leram ou não acham que isso dá música!

José Fernandes de Oliveira

(Padre Zezinho) pertence à Congregação do Sagrado Coração de Jesus, é escritor, compositor, cantor e dedica-se à Pastoral da Comunicação



Fonte: Revista Família Cristã, Ed. N° 872, Ago/2008, pág. 44

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...