sábado, 29 de novembro de 2008

Depoimento de um jovem de Itajai sobre as chuvas dos ultimos dias

Olá aos amigos, colegas e companheiros de caminhada...
Antes de mais nada, quero dizer que eu estou bem... agradeço as pessoas daqui, e de outros Estados que ligaram, mandaram mensagem ou telefonaram... Nessas horas a gente percebe o carinho o respeito de pessoas que estão perto , ou que passaram no meu espaço curto de vida.
Estou escrevendo a todos, como um grito intalado em meu coração, e peço a reflexão de todos, ou até mesmo a divulgação dessas humildes palavras e pensamentos para outras pessoas.
Meu trabalho com as enchentes começaram no domingo pela manhã, fui para uma igreja e conversei com o padre para abri-la, pois um dos colégios do bairro, já estavam cheias de pessoas. Após abrirmos a igreja, começamos a montar uma pequena estrutura para colaborar com as famílias que vinham para o local. Logo começaram a chegar as primeiras famílias, e logo comecei a ver nos seus rotos um olhar triste, de revolta, sem esperança e perspectiva de vida. Após organizar equipes de ajuda e tentar confortar as pessoas nas salas, conversei com donas de casas desoladas, com lágrimas nos olhos, minha conversa foi no sentido de apenas escutar, segurar suas mãos, dar um sorriso, enxugar suas lágrimas...
Com a vinda de voluntários que participam da igreja, fui para uma outra escola, e a meu pedido ela foi aberta. Lá na escola começou um dos maiores desafios da minha vida. Sem estrutura de grupo, coordenei mais de setecentas pessoas (mais de trezentas famílias), durante seis dias, sem estrutura de banheiro, sem água no local. Na escola, não tivemos nenhuma equipe da escola, então era eu, meu amigo e companheiro Aureo e o povo.
Já na noite de domingo, comecei a perceber que a tristeza das famílias e do povo, não vem somente da tragédia que encontra-se na cidade. Vem diariamente por um sistema que beneficia os ricos, sofre pela classe média que se acha superior, sofre pela falta da estrutura de uma educação falida, por uma mídia que faz a gente se alienar e esquecer do próximo. Mais do que nunca, hoje percebo o porque de mulheres e homens acabam bebendo e entrando no vicio das drogas ou do alcoolismo. Esses vícios é uma fuga da realidade desse povo. Mais do que nunca vejo o porque das pessoas querem resolver tudo no "braço". Isso deve-se a luta da vida, a como esse povo é tratado e passa despercebido em nossa sociedade. Esse povo " é o que mais sofreu"...
Mas nesses dias, sobrevivemos! A primeira preocupação era, temos gente, mas não temos o que comer e onde dormir, realmente ver crianças, e idosos dormindo no chão gelado de uma classe de aula, acaba sendo doído demais. Nunca me esquecerei do rosto do povo, melhor, do povão, pois todos que estavam no colégio eram das periferias da cidade. Junto comigo apareceu uma família que veio ajudar na organização do povo, ficaram conosco três dias conosco. Na primeira noite foi a mais difícil, mulheres brigando (e eu apartando), senhores de idade tendo ataques, (e eu correndo pro posto) enfim... Mais sobrevivemos!! Alguém pode pensar, nossa brigando numa situação dessa? Sim... a briga faz parte do cotidiano dessas pessoas, pois o que elas só recebem de policial, do patrão, e das lojas de roupas é “patada”. Então... briga, cachorro (que realmente é o melhor amigo deles), cachaça fazem parte da cultura desse povo.
Voltando as preocupações... a segunda era temos o que comer, e poucos colchões e cobertas, então como distribuir? Tudo, tudo o que vinha e passava a ser distribuído, era pensado, re-pensado, como um jogo de xadrez. Imagine mais de 700 pessoas, que estão nervosas e revoltadas... uma briga negeralizada era rápido. O que fazer? Jogar e fazer o povo pegar que nem bicho? Ou estabelecer critérios para os mais necessitados? Optamos pelo mais difícil a segunda opção.
Só vim para casa hoje, (após seis dias) fiquei quatro sem tomar banho. Confesso que tomar banho foi motivo de meu primeiro choro... Nos outros dias formamos uma família... Verdadeiramente companheiros... Enfim, agradeço a todos aqueles que mandaram mensagens, a aqueles que por outros motivos não entraram em contato. Quero dizer a que não sou o mesmo Guilherme, que minha militância, meu trabalho no Instituto Fala Guri, minha conversas com os jovens e com o povo, e principalmente minha liderança está muito mais madura... Aliás, andar pela cidade ver casas destruídas, ver o povão na fila quilométrica vendo um policial grosso pensando com que está tocando a boiada, só faz meu coração e minha alma engrandecerem...
Nesses dias, a cada história contada a minha pessoa, a cada Deus te abençoe, a casa sorriso ou choro faziam a minha pessoa mudar..Para finalizar... após a ler todos que leram essas pequenas, humildes e reflexivas palavras, peço a todos que ao dormir agradeça pela vida, agradeça pelo seu alimento, peço para que olhe para cada coisa de sua casa, e principalmente olhem para o próximo.
No mais a vida segue... a chuva cai... e amanhã novo trabalho acontece...

Guilherme
Instituto Fala Guri





contribuicao vinda da secretaria regional das PJ's SC

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