sábado, 24 de janeiro de 2009

III Fórum Mundial de Teologia e Libertação



por Ana Rogéria*

Em sua terceira edição, o Fórum Mundial de Teologia e Libertação reúne, na Fundação Cultural do Pará, em Belém, centenas de teólogos e teólogas de várias partes do mundo. Com a temática voltada para o meio ambiente, o Fórum se coloca em dia com uma preocupação global.


O secretário executivo do FMTL, Luiz Carlos Susin, falou à ADITAL sobre os assuntos que cercam a teologia e faz uma avaliação das edições anteriores. Confira a entrevista.


Adital - O Fórum Mundial de Teologia e Libertação tem se firmado como espaço de reflexão autônoma da teologia. O que significa isso no panorama da teologia mundial?

Luiz Carlos Susin - O Fórum está se consolidando como um espaço de encontro ecumênico de teólogos e teólogas que trabalham com o debate das igrejas com a sociedade. Não é uma teologia propriamente das igrejas, embora seja uma teologia que também tenha como raízes as tradições de diversas igrejas, mas ela é uma teologia que busca abrir caminhos nas grandes questões que hoje são interrogações para a humanidade e que dizem respeito também a nossa fé, nossa espiritualidade. Deus está em causa também. E que está no âmbito do Fórum Social Mundial onde também são debatidas questões de ordem fundamental para os próximos passos do planeta terra, pois estamos discutindo justamente o futuro do planeta.


Adital - Hoje se observam várias vertentes da teologia. Teologia da Terra, das Mulheres....Como se avalia essa diversidade?

Luiz Carlos Susin - Essas Teologias, no plural, elas se devem a toda uma mudança que nós tivemos daquela imposição de um único pensamento, de uma única teologia que sempre foi pensada como a teologia universal. Mas na verdade era a teologia da história da Europa, é quando a gente redescobre de algum modo outras formas de pensamento, de sabedoria que tem espiritualidade, que tem experiência de Deus e que estão submersas, que não tinham palavras, que por muito tempo ficaram reprimidas. Na relação de gênero, por exemplo, a voz teológica das mulheres não se fazia ouvir. A teologia tem uma marca patriarcal. Então é claro que todos os processos de libertação possibilitaram emergir esses diferentes discursos que criam um pluralismo teológico, criam uma diversidade de vozes teológicas. Hoje só é possível a gente ser relevante, se a gente pode também entrar nessa sinfonia de muitas vozes para fazer a teologia. Não há pretensão de hegemonia. Isso seria voltar a um sistema que a gente luta para superar.


Adital - E quanto às divergências sobre essa pluralidade?

Luiz Carlos Susin - Entre as novas formas de teologia existe muita convergência. O fórum é um lugar de convergência. Se você toma, por exemplo, teologia índia, teologia feminista, ecoteologia, você encontra convergência, maneiras e aspectos que enriquecem um ao outro. O que temos de possível conflito é entre a pretensão de universalidade de uma única voz teológica com essa diversidade.


Adital - O Fórum está em sua terceira edição. Que avaliação o senhor faz dessas edições?

Luiz Carlos Susin - Nós podemos dizer que há um crescimento contínuo. Não só na participação, mas na forma de acontecer o Fórum. Olhando para trás, podemos dizer que o primeiro não passou de um congresso, onde havia uma representação dos continentes. O segundo já teve a dinâmica de um fórum. Esta edição aumentou esta dinâmica. Nós criamos novas possibilidades de espaços e de alternativas simultâneas dentro da edição porque essa é a proposta do Fórum, de troca de experiências. A gente sente que houve um salto na qualidade.


Adital - Este edição tem como eixo o meio ambiente. Poderia falar mais sobre o tema?

Luiz Carlos Susin - Este ano o enfoque é o meio ambiente, a ecologia como uma dimensão a ser incorporada nas grandes questões da teologia que quer libertação, que quer justiça, que quer reconhecimento de dignidade. Então temos facilidade de diálogo interreligioso. Na África, fizemos este diálogo com muçulmanos, com a religião tradicional africana, com o hinduísmo que está muito vivo por lá. Aqui o nosso diálogo é, sobretudo, com a teologia índia e com os próprios povos indígenas que estão presentes. E isso faz com que tenhamos muito mais espaço para incorporar a mística e, ao mesmo tempo, estamos afinados com uma grande questão do nosso tempo, da qual ninguém pode se eximir, que é a crise ambiental. Todo mundo está disposto a dar sua colaboração e a saber o que isso significa para o nosso futuro, para uma nova concepção do ser humano e das suas relações com o mundo.


Luta de Irmã Dorothy é referência no Fórum Mundial de Teologia e Libertação


"Água e terra para um outro mundo possível". Com esse lema, a terceira edição do Fórum Mundial Teologia e Libertação, que acontece até o dia 25, na Fundação Cultural do Pará, em Belém, não deixaria de dedicar um espaço à Irmã Dorothy, nome que hoje se traduz em símbolo de luta e resistência dos povos amazônicos.


No Espaço Dorothy, no hall que antecede o auditório onde se realizam os painéis, impossível não sentir a força do comitê e a vontade de justiça ainda não saciada pela morte da irmã Dorothy Stang, em 12 de fevereiro de 2005, em Anapu (PA). Estão lá cartas da década de 80 denunciando a grilagem e o desmatamento, vídeos com depoimentos de ambientalistas renomados, e alguns punhados da terra do local onde a irmã foi morta.


"Esse espaço é para chamar a atenção para tudo o que Dorothy foi, é e continua sendo. Isso diz respeito à luta pelo meio ambiente, à luta contra a impunidade, a grilagem, o desmatamento. As cartas dela continuam atuais", afirma irmã Julia Depweg, integrante do Comitê.


Dorothy, assim como Chico Mendes, está dentro dessa luta de todos e todas que desejam e trabalham por um mundo melhor, que é possível. De acordo com irmã Julia, hoje o legado deixado por Stang continua vivo. "Uma pena que com a morte dela, talvez hoje se consiga chamar mais atenção para os problemas ambientais. Foi uma escolha dela. Sempre queriam que ela recebesse proteção especial, mas ela insistentemente não queria. Queria proteção para toda a comunidade", conta Julia.


Hoje, quando se completam quase quatro anos de sua morte, o Comitê lamenta a decisão da justiça, que absolveu Viltamiro Bastos, mandante do assassinato de Stang. "Nunca esperávamos que ele fosse perdoado pela justiça", conta relembrando o dia da sentença. "Quando saiu a sentença, todos nos ajoelhamos e escutamos a notícia da absolvição. Por isso, não podemos lidar com isso que eles chamam de justiça. Que justiça é essa?", indaga.


No próximo dia 28, dentro da programação do Fórum Social Mundial, será exibido o documentário "Mataram Irmã Dorothy", que trata do trabalho da missionária que dedicou 30 anos de sua vida em apoio aos excluídos.

As matérias do projeto "Ações pela Vida" são produzidas com o apoio do Fundo Nacional de Solidariedade da CF2008.


Ana Rogéria*, diretora da Adital, direto de Belém-PA.

Fonte: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=37005

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