quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A mobilização pelas lágrimas

O poder de agendamento da telenovela passa ao largo da politização
por Malu Fontes*

Dificilmente contesta-se a tese de que a idéia que o mundo tem dos Estados Unidos, da identidade dos norte-americanos e do american way of life é resultado da engrenagem cinematográfica hollywoodiana, que espalhou pelo planeta muito mais que filmes, divas e galãs. Exportou e produziu não apenas histórias telecontadas. Foi além: forjou, em todo o mundo, sonhos, modos de vida, fantasias e predominantemente caricaturas da história do imperialismo que representa. Foi fundamental para ensinar e difundir desde gestualidades sensuais, sexuais e narrativas amorosas a ideologias políticas e de consumo, passando pelo poder de dourar a supremacia do capitalismo.

Cada um tem a Hollywood que pode e, no Brasil pode-se dizer sem risco de errar que a telenovela está para a construção do imaginário nacional assim como o cinemão hollywoodiano está para a idéia que o mundo tem dos Estados Unidos da América. Não importa que os intelectuais e os mais letrados torçam o nariz para o produto, quase uma unanimidade negativa entre os bem formados nas melhores universidades do país. O fato é que, embora a telenovela brasileira seja vista sob uma aura de sinistrose pela intelligentsia, ela foi, é e continua a ser o produto de consumo cultural mais importante, democrático e acessível às massas do país. Chega, levando o mesmo texto, as mesmas tramas e narrativas estéticas, tanto às suítes nababescas dos condomínios de luxo quanto aos barracos de um cômodo só, que podem até não ter geladeira, mas têm um aparelho de TV e, não raro, nos rincões brasileiros, uma antena parabólica para garantir a boa recepção das imagens.

SEM LIVRO – O poeta e semiólogo Décio Pignatari já disse que a televisão brasileira teve um papel de alfabetizadora nacional para todo um contingente populacional que dos anos 60 para cá migrou, analfabeto ou com baixíssimo letramento, para os grandes centros urbanos. Essas pessoas, vindas de uma cultura essencialmente oral e restrita ao lugar onde habitavam, onde as trocas simbólicas tinham dimensões limitadas e o exercício da abstração era parcamente alimentado, de uma hora para outra, sem escalas, começam a apreender o mundo das cidades, as práticas, os hábitos e as aparências dos mais favorecidos através de uma espécie de manual televisual de urbanidade eletrônico, na tela da TV, sem antes terem passado pela cultura do livro.

Não precisa ir muito longe para imaginar os abismos simbólicos provocados por essa transposição armengada sobre o canyon cultural existente entre dois mundos, o rural e o urbano, o letrado e o iletrado, o mundo dos poucos muito ricos e dos muitos muito pobres. Ao olhar para a novela, embalada pela emotividade minuciosamente pensada previamente, toda uma miscelânea sócio-econômica começa a ver a mesma coisa, consumir os mesmos estímulos visuais e é assim até hoje. Em tempos em que a ditadura militar ajudou a estruturar um sistema de telecomunicações que proporcionasse a população uma idéia de integração e unidade nacional, a telenovela foi um instrumento perfeito, um achado. Um país se via na TV, com quase tudo homogeneizado, pois se tem algo que nunca funcionou na televisão brasileira foi a regionalização. Do Amazonas ao Rio Grande consome-se praticamente o mesmo caldo televisivo quase que totalmente produzido no eixo Rio-São Paulo.

PASSIONALIDE - Embora produzida no mesmo centro cultural e geográfico, a telenovela pauta o repertório e a subjetividade de um país inteiro. Muda comportamentos, emociona, produz ódios nacionais e mobiliza contingentes populacionais inimagináveis, de tal modo que todo ativista ou militante de uma causa social hoje sonha não com uma matéria em um telejornal nacional, mas com a inserção de sua causa em uma telenovela, com um autor que a adote e coloque-a nas falas e atitudes da mocinha da trama ou do galã. Uma personagem de novela, linda, loura, rica, jovem e carioca, como a Camila interpretada por Carolina Dieckman em Laços de Família, de Manoel Carlos, precisa de um transplante de Medula: imediatamente o país assiste a uma generosidade sem antecedentes de doadores que procuram bancos de medula país afora.

Diante de tamanho potencial de mobilização da telenovela, paradoxalmente chama atenção o fato de o produto agendar de tal modo o repertório, os costumes e o comportamento nacionais sem passar perto da politização dos temas que aborda. Ao contrário, é sempre acusada, com justiça, de despolitizar a audiência. Ao defender suas causas jamais o faz pelo viés ideológico ou sócio-político, mas tão somente pela emoção, pelo estímulo à parcialidade das lágrimas e pela identificação com fantasias românticas de folhetim. Uma explicação para que seja assim e mobilize tanto talvez esteja no fato de que, para além da língua, a passionalidade seja uma das raras coisas comuns a um povo de um país tão amplo, diverso e multifacetado. A outra é a velha e boa tese da alienação proposital denunciada pelos críticos como sendo a marca do veículo televisão.

Malu Fontes* é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA;

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