quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Diário de Bordo do FSM 2009 – Na mística da indignação, da luta e do amor

"Todo revolucionário é movido por

um profundo sentimento de amor".

Che Guevara

Mais uma vez pude, entre companheiras e companheiros, irmãs e irmãos, estar na reunião mundial que busca mudar esse mundo impossível de continuar existindo, inviável dentro do atual modo de produção e de consumo e de violências.

Partimos de Goiânia, da Casa da Juventude Pe Burnier, no dia 25 de janeiro em direção às terras maranhenses, que tanto sofreram e sofrem com a oligarquia Sarney, e que vivem o clima de mais uma jogada golpista do antigo-novo presidente do Senado brasileiro. Fomos para a cidade de Imperatriz Loide, Valéria, Glauber e eu, levando conosco um mês de estudos na pós-graduação em adolescência e juventude no mundo contemporâneo. Levávamos também as amizades, a CAJU, as experiências, as PJ's, as saudades e os sentimentos mais bonitos de um ano de convívio no curso em Goiânia.

Em Imperatriz chegamos no dia 26 de janeiro, sendo acolhidos pelo companheiro e irmão Johnson, da coordenação nacional da Pastoral da Juventude. Vivemos um dia maravilhoso, com outros companheiros da PJ de Imperatriz e com a família de Johnson. Celebramos esse dia com uma(ss...) cerveja(ss...) e com tacacá. Às 23h Valéria e eu embarcamos para 8 horas de viagem até Belém. Reencontraríamos Johnson e Glauber no FSM, mas Loide seguiria na manhã seguinte para Marabá. Tristeza pela distância e alegria pela certeza da amizade. Infelizmente se confirmou que meu irmão Dudu não conseguiria ir para o FSM. Caminhávamos, porém, juntos na utopia. Seguindo para Belém, conversando com Valéria, ouvindo Raul Seixas, Pink Floyd e Bob Dylan, o pensamento voava antes e antevia os debates políticos, a diversidade cultural, o reencontro com pessoas, o reencontro com sentimentos, o desejo de estar junto(s).

Estamos no dia 27 de janeiro, e minha nova residência é o colégio Marista. Lá encontro, enfim, os companheiros de São Paulo Dalmo, Vítor e Maurão, embaixador da alegria e da amizade pelo estado de SP, e já pela manhã estou novamente com meu irmão Alex. Agora nos sentimos mais completos, porque Vanessa, Vânia e Magno também estão conosco. Como é bom estar em comum-idade. Às 14h ela fica mais completa pois reencontro meu camarada, irmão e companheiro de estradas (Brasília, Porto Alegre, Ribeirão Cascalheira, Assunción etc...) Marquinhos, juntamente com sua namorada e minha irmã Lívia. Seguimos para a Marcha de abertura do FSM 2009, e sinto essa comunidade em sintonia com as(os) companheiras(os) que ficaram em São Paulo, Dudu, Magali, Gisele, Márcio, Renata-Renato-Luanda, Luciano, Zé, Marcela, o grupo da PJ da paróquia Santa Zita, a PJ da Arquidiocese de São Paulo, o IPJ..., e que caminhamos na luta, na resistência, na insistência, na utopia e no amor. Amor que é a fonte para o profetismo, para o humanismo e para a revolução. Que forja o revolucionário e o humano, e revela a divindade em nós e a nossa vocação à felicidade; que é a transversalidade da Boa-Nova e a radicalidade subversiva do jovem de Nazaré. Amor que é Cáritas, e que na beleza do humano também é Eros e Ágape e Philia.

Já em processo de decomposição por conta do calor paraense, no portal da Amazônia, chegamos à concentração da Marcha. Vemos logo de início as organizações sindicais, os grupos LGBTT e as manifestações contra a guerra genocida de Israel. Não demora muito e todo o calor de Belém se transforma em uma incrível chuva que convida todas e todos para seguirmos em Marcha. Em meio a esse batismo amazônico, onde eu não enxergava quase nada, pela minha péssima visão, de um lado, e pelo estado dos meus óculos, de outro, que reencontro Ceila em frente ao Ministério da Fazenda. Eu não conseguia enxergar nada, mas acho que os olhos não enxergam tudo. Às vezes há coisas que vêm escritas na testa? É difícil entender algumas coisas. "Como as grandes obras, os sentimentos profundos significam sempre mais do que têm consciência de dizer", diz Camus. Sei lá! A marcha seguia em estado climático líquido e em estado político bem sólido de crítica ao sistema econômico capitalista e às guerras permanentes, assim como as manifestações contra a mercantilização e destruição dos elementos naturais. Havia um grande número de militantes de partidos políticos brasileiros e das centrais sindicais. Na minha percepção, a maioria dos que estavam na Marcha era jovens. Fico pensando naqueles que afirmam a apatia política da juventude hoje. Fico pensando quando o Chico de Oliveira diz que há uma luz no fim do túnel, mas que essa luz é o trem que está vindo. A Marcha termina em frente à rodoviária de Belém. Ali nos separamos de Ceila, que foi para Ananindeua, onde estava hospedada, e Lívia, Marquinhos, Valéria e eu fomos refrescar as conversas com alguma(ss...) Cerpa(ss...) Golden. Durante nossa conversa de alto nível teórico e político, a umas cinco mesas de onde estávamos, ocorre uma confusão onde um homem agredia outro, embriagado, com um pedaço de pau, deflagrando golpes na cabeça deste. Rapidamente o agressor foi contido por pessoas que estavam próximas. Nos olhamos, nos questionamos. Pensamos na superação desse mundo impossível. Na possibilidade de um outro mundo. Na transformação da estrutura (infra e super) e no novo homem e na nova mulher.

Seguem as atividades do Fórum: a tenda dos 50 anos da Revolução Cubana e os debates sobre mídia na UFPA; o acampamento, a tenda de direitos humanos e a tenda Doroty Stang na UFRA. Frei Betto nos alertou que a luta pelo socialismo, hoje, tem que pautar o combate à destruição da Amazônia. Aliás, os militantes que querem uma outra sociedade precisam também ser ecológicos, porque a militância é pelo cuidado de tudo o que vive. Betto insistiu que a grande tarefa hoje é o trabalho e formação de base. Aliás, como isso vem sendo discutido nas pastorais sociais e nas pastorais da juventude! Foi emocionante ouvir Diego Pari, vice-ministro de Educação Superior da Bolívia, falando sobre o processo de transformação que vem ocorrendo desde o MAS, passando pela eleição de Evo, e culminando, recentemente, na vitória no plebiscito. Boaventura de S. Santos falou das possibilidades de mudanças sociais e econômicas na América do Sul. O caminho, para ele, pode ter como exemplo justamente o processo boliviano, que tem como sujeitos as raízes das Américas: os povos originários. O marxismo ortodoxo não atentou para esses sujeitos. Os movimentos de esquerda sul-americanos não podem cometer/insistir nesse erro no atual momento histórico. Uma fonte, para Boaventura, é o teórico e militante peruano Mariátegui. Leonardo Boff, entre tantas coisas profundas que nos provocou, problematizou o otimismo que existe em torno da vitória de Obama nos EUA. De forma direta, ele argumentou que Obama está dentro de um governo, e que esse governo, pela sua composição, mantém a política imperialista. Não acompanhei muito bem o encontro dos cinco presidentes, ocorrido no dia 29. Mas achei que a maioria das pessoas que acompanhavam o encontro não tinha muita dimensão de tudo o que está acontecendo na Bolívia e no Paraguai, e quem são Evo Morales e Fernando Lugo.

A sexta-feira, dia 30, foi meu último dia em Belém. Iria voltar de carro, e precisava iniciar viagem no sábado pela manhã. Tinha a sensação que uma parte do meu coração ficava, e que a outra parte que vinha comigo não queria partir sozinha. Também pensava quais as vias reais de transformação estrutural para o Brasil e para a América Latina. E, obviamente, imaginava os não sei quantos mil quilômetros que íamos enfrentar na viagem de volta. Tinha que estar segunda-feira na escola que trabalho, onde leciono filosofia. Ainda deu tempo, à noite, de tomar um chopp (até porque ninguém é de ferro!).

Seguimos pela rodovia estadual paralela à Belém-Brasília. Era a rodovia onde ocorreu o massacre de Eldorado dos Carajás. À beira da estrada, em Eldorado, há um memorial onde o MST não deixa que se esqueça o que o latifúndio produz: mortes. Mártires. Sangue que denuncia as injustiças e aduba o chão da luta latino-americana. Desviando dos grandes buracos da rodovia, ultrapassando os caminhões que levavam imensas toras, atravessando pontes onde só passava um veículo por vez, paramos para abastecer em um posto na cidade paraense de Xinguara. Era dia 31, e por volta das 17h40 D. Albanizar, 41 anos, está limpando a entrada do banheiro. Pergunto a ela se posso usá-lo. Ela diz que sim, e que depois limpava, pois naquele dia ela iria limpar tudo, porque "amanhã estarei de folga, será minha segunda folga em oito meses". Fiquei estático, entre a indignação, a perplexidade, a angústia e a impotência. Sentei ao seu lado, e ouvi a narração, que poderia estar em "Morte e Vida Severina" ou nas "Veias Abertas da América Latina", ou quem sabe em um dos evangelistas: trabalhava mais de doze horas por dia. Há dois meses, por conta de uma intervenção judicial, estavam assinando sua carteira, com um salário mínimo por mês, que com os descontos, lhe chegam à mão cerca de R$ 380. Não recebe almoço. Os outros funcionários, dois filhos da dona do posto, mais uma amiga dos filhos, podem comer no restaurante. Ela precisa ir para casa, três quilômetros dali. Portanto, anda doze quilômetros por dia. Já migrou para São Paulo, e vive hoje com o filho de 17 anos de idade. Em oito meses trabalhando ali, o dia 01 de fevereiro de 2009 seria seu segundo dia de folga. Mostra para mim o pátio do posto, equivalente a umas quatro quadras de futsal, cheia de lixo e peças de carros e caminhões. "A patroa quer que eu limpe tudo isso, e sozinha". E com toda a energia, diz imediatamente: "Ela que limpe sozinha, eu quero é sair daqui". Em meio ao meu sentimento de angústia sartriana e de impotência, lembro de Cecília Meireles: "Liberdade – essa palavra/ que o sonho humano alimenta:/ que não há ninguém que explique,/ e ninguém que não entenda!". Ao mesmo tempo, penso em minhas teorias, e lembro agora de Mariátegui, quando diz que "fazer política é passar dos sonhos às coisas, do abstrato ao concreto". Pergunto-me com uma inquietação evangélica: o que ando fazendo?

Reparo agora que uma das palavras que mais utilizei aqui estavam ligadas ao verbo "seguir". Seguimos o quê? Quem? Pra onde? Sei que seguimos para São Paulo, e que nas proximidades de Uberlândia, às 3h30 do dia 2 de fevereiro arrebentamos (arrebentei, porque era eu que estava no volante!!!) duas rodas do carro em um enorme buraco. Numa estrada quase deserta, foi impressionante para mim, naquela hora da madrugada, a quantidade de pessoas que pararam para tentar ajudar, levando em consideração que a polícia rodoviária não "pôde" nos auxiliar e nem parou para ver se precisávamos de socorro. A solidariedade estava presente e a aventura seguiu até às 15h30, quando chegamos finalmente em São Paulo.

Acho que a aventura segue, e que a indignação é ponto de partida para uma nova sociedade. Mas ficar só nela é ser um fariseu. A luta é necessária e urgente. A luta por transformações estruturais e transformações relacionais, encharcadas de amor subversivo e radical, como o do jovem nazareno. Seguimos, querendo ser felizes, e querendo ajudar a construir espaços felizes, na indignação, na luta, na militância, no amor.

"Eu dou um passo, ela dá dois passos.

Ela dá dois passos, eu dou quatro passos.

Eu dou quatro passos, ela dá oito passos.

Para isso serve a utopia, para eu seguir caminhando."

Eduardo Galeano

Marcelo Naves

Um comentário:

  1. Nossa muito legal esse relato do Marcelo. Uma síntese do que os Kombatentes vinham registrando. Estive no PA, em outro contexto, sob outras óticas, mas logicamente pude também perceber como é sofrida e difícil a vida do nosso povo do Norte.

    "Quem traz no peito essa marca possui a estranha mania de ter FÉ na vida".

    Esse talvez seja o grande segredo. Às vezes olhamos a realidade dos nossos povos quilombolas, indígenas, caboclos, retirantes e tantos outros povos que habitam na grande Amazônia...e pensamos: "-Poxa, nem parece que é no Brasil isso!", ou pior ainda desconhecemos como sendo parte da nossa realidade. A ganância que destrói a floresta, gera trabalho escravo, prostituição infantil, que expurga os recursos hídricos e minerais segue a mesma e única lógica sempre: ambição, ganância, poder.

    Lembremo-nos dos nossos mártires da terra, que buscam fazer justiça e gerar emprego e renda de forma sustentável. Parece mentira, aqui onde se goza de prazeres, casas, praias, de uma linda paisagem inundada de biodiversidade(sabe-se lá até quantos poucos anos mais), aqui também: verte-se sangue do nosso povo, suor de de dezenas de rostos que suplicam a Deus por ao menos uma vez na vida, substituir o suor por um sorriso. Aqui mesmo, nessa terra Chovem flagelos, chacinas e colhe-se destruição, dores, horrores.

    Obrigado a todos que sempre nos incitam essas reflexões, que testemunham com "os próprios olhos", porque hoje a hipocrisia que nos cerca jamais pensa em si, mas sempre primeiro..."ahh e tu o que faz?" ou "Ah, e eu com isso?".

    "Há que se ter FÉ na VIDA".

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...