terça-feira, 1 de setembro de 2009

O que os astros dizem sobre a sua felicidade?


No mundo pós-moderno as pessoas cada vez menos querem assumir suas vidas e lutar para construir a sua história. Preferem que alguém tome essa “decisão difícil” e nos diga como será e o que teremos que fazer. Infelizmente isso não é mais uma simples exceção.  
É mais fácil passar a solução do problema para as estrelas e para quem faz as “adivinhações” e os horóscopos. Muitos que acreditam e estudam sobre isto poderiam me chamar de louco, e de preconceituoso. Desfaço tais argumentos pela história de alguém que já acreditou nessa balela e viu o grande erro de tais “superstições”: Santo Agostinho.
Para quem acredita nessa “astrologia”, segundo Agostinho, o impulso de pecar vem dos céus; foi Vênus, Saturno ou Marte que fizeram isto – e tudo para que o homem, que é carne, e sangue, e soberba podridão, se sinta sem culpa, e atribua esta ao criador e ordenador do céu e das estrelas”. O culpado então pelo nosso destino, pelos nossos erros e pelas nossas lágrimas e dores é o próprio criador dos céus, ou seja, Deus. A pós-modernidade então, nos faz, por via obliqua, culpar Deus pelas misérias que nós mesmos cultivamos e semeamos por nossas escolhas.
 “Ah”, dirão outros, “mas existem outras ciências, que não se baseiam nas estrelas para descobrir o seu futuro”. Em verdade, não importa se são estrelas, estrume de vaca ou as tripas de animais (como acontecia na antiguidade), mas o fato de que “colocamos a culpa” dos nossos erros em algo externo a nós, bem como confiamos a chave de nosso futuro à pré-determinações que não tem nada a ver com as decisões que tomamos. A nossa vida está em qualquer lugar, menos nas nossas mãos.
Cada vez me convenço mais de que as pessoas não gostam de tomar decisões. Elas temem os efeitos, as consequências de uma escolha e assim querem que qualquer outra coisa ou pessoa decida por elas. Isto demonstra a infantilidade com que encaramos nossa existência. Isso mostra que estamos criando uma “raça de gente fraca” (Pe. Léo).
Quando queremos que as soluções de nossos problemas venham dos astros (ou seja, venham de fora de nós) confessamos e declaramos que as repostas da nossa vida não estão dentro de nós, que somos incapazes e inábeis. A pós-modernidade nos faz fugir de nós mesmos, fugir de nossos problemas interiores.
Somos, cada vez mais, grandes líderes por fora, mas escravos em nosso mundo interior (A. Cury). Quando temos um problema interior, o mundo nos apresenta uma solução fácil, como sair para fazer compras (algo externo). Isso é fuga. E isso só aumenta o fantasma interior que nos atormenta. Nisso, já não somos mais íntimos de nós mesmos, e cada vez conhecemos menos quem somos nós. Como afirmou Santo Agostinho: “Eu era para mim mesmo uma infeliz morada, na qual era ruim e da qual não podia sair. E para onde iria meu coração, fugindo de si mesmo? Para onde fugir de mim mesmo? Para onde não me seguiria?”.
Enquanto a busca da felicidade exige esforço, determinação e luta, o mundo vende o “genérico” da felicidade e da alegria: a euforia. Comprar a felicidade é impossível: você deve conquistá-la. Mas o “genérico” que o mundo oferece pode ser comprado. E é cada vez mais fácil, e você pode parcelar em até cem vezes e sem juros.
Acontece que o mundo não vende a felicidade, mas sim a aparência da felicidade. Por isso muitas pessoas gastam enormidades de dinheiro tentando comprar a felicidade e chegam ao final da corrida mais miseráveis do que quando começaram. O mundo vende uma felicidade fácil, que não existe. Muitas pessoas, porém, continuam a comprar esta aparência de felicidade que, assim como um entorpecente, tem seus efeitos limitados a no máximo algumas horas. A ressaca vem depois, e viramos dependentes de uma pseudo-alegria que nunca nos satisfaz, mas mesmo assim teimamos em buscar incessantemente.
A vida é simples e singela, mas exige esforço e determinação. Não é nos mapas astrais que vamos encontrar o tesouro que sempre esteve dentro de nosso coração. É preciso desvelar a pérola preciosa que sempre esteve e está no coração de cada ser humano, e isso exige esforço: preferimos, então, nos acomodar e conformar com aquilo que podemos comprar. Simulamos uma estética de felicidade, aparente e frágil, com cor, mas sem conteúdo: colorem habent, substantiam vero nullam.
A “astrologia” exatamente diz que a felicidade é sua. É uma propriedade: você pode ter no seu patrimônio. E esse é o erro dela. A busca pela felicidade nos transforma em um exame de abelhas que corre em direção de um alvo, aparente e inexistente. Como diz Bauman, não se move uma multidão empurrando-as, mas direcionando-as pelos seus sonhos. Os sonhos de felicidade individual, fácil e automática movem nossa sociedade. Acontece que a felicidade não é individual, porque ela não é apropriável pelo indivíduo, ela nasce do compartilhar de vidas; nem fácil, porque ela é fruto de uma árvore que precisa ser semeada até que cresça e, então, frutifique; e não é automática, pois a felicidade pronta é algo que se vende num fast food, e a felicidade douradora é fruto da paciência e persistência.
A ditadura da aparência (Gui Debord) não só diz qual o modelo de felicidade que devemos seguir, mas o impõe severamente. Cada vez mais nosso campo de decisão diminui: ora pelos "astros", ora pela "ditadura da aparência", mas sobretudo por nós mesmos que nos sujeitamos aquilo que nega o que realmente buscamos e queremos.

Chesmam Pereira Emerim
Sombrio - SC

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