sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Romaria da Terra e da Água reúne 3 mil romeiros em Ilhota

Exatamente um ano após o desastre ambiental ocorrido no litoral catarinense que atingiu fortemente o município de Ilhota (116 km ao norte de Florianópolis), deixando um triste rastro de 47 mortes, a comunidade do Braço do Baú, tão sofrida pelos deslizamentos de terra que soterraram famílias inteiras, recebeu com muita alegria cerca de três mil romeiros e romeiras que vieram de todo o estado catarinense participar da 21ª Romaria da Terra e da Água.

Motivadas pelo lema: CUIDAR DA TERRA. GARANTIR A VIDA, as pessoas presentes durante todo o domingo, 15 de novembro, puderam ver, ouvir e sentir as reflexões sobre a questão agrária, o meio ambiente e a necessidade de se cuidar da nossa Mãe-Terra.

Os mortos pela enxurrada de novembro de 2008 foram lembrados num momento de silêncio logo na abertura do evento. Também em sinal de respeito à terra, romeiros e romeiras foram convidados(as) a tocarem o chão, durante alguns instantes.


Promovida em conjunto com a Comissão Pastoral da Terra de Santa Catarina (CPT-SC), a Diocese de Blumenau, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – Regional Sul 4 (CNBB – Sul 4) representada pelas pastorais sociais – e também por vários movimentos sociais, entre estes alguns ligados à Via Campesina, a Romaria teve o seu início nas primeiras horas da manhã, quando durante uma caminhada de cerca de 1,5 km, romeiros e romeiras puderam ouvir os gritos da Mãe-Terra, que sofre a destruição causada pelos agrotóxicos, desmatamentos, queimadas, poluição, monoculturas, desastres ambientais etc. Também ouviram um forte depoimento do Sr. Adolfo, morador da região do Baú, que emocionou a todos ao partilhar a triste experiência sofrida pela comunidade e a sua dor pela perda de seis parentes.

No momento do julgar, a iluminação pela palavra bíblica, transmitida aos presentes através da leitura do Êxodo 3,7-10 a qual nos ensina que Deus vê, ouve, sente e desce para ajudar o seu povo. Este foi ainda o momento de resgatar a esperança, a ética do cuidado e da reconstrução da vida e também relembrar o Mito da Terra Sem Males.

Ainda durante a caminhada, plantou-se na praça da Igreja Matriz, a Cruz de Cedro. Resgatada da luta dos pobres e excluídos do Contestado, quando era plantada pelos monges João e José Maria, é um símbolo de fé, de vitória e de esperança, ainda mais forte quando, após algum tempo, ela venha a ter o seu broto mostrando também o sinal da vida. A Cruz de Cedro é plantada nas Romarias da Terra em Santa Catarina desde a sua primeira edição, em 1986, na comunidade do Taquaruçu, Fraiburgo, local importante da Guerra do Contestado. É interessante destacar que desde a primeira romaria o preparo desta cruz tem ficado sob a responsabilidade de um grupo de agricultores de Meleiro, Sul do Estado, que assumiu espontaneamente esta tarefa e a faz com muita alegria.



Assim como aconteceu na vigésima edição, a partilha foi um marco muito forte e presente no jeito de se fazer também esta Romaria. Como forma de “se resgatar o sentido de comunhão, de partilha, de troca de experiências solidárias como eram as primeiras comunidades cristãs e como forma de contrapor ao projeto capitalista baseado no mercado e na competição” várias tendas, ao redor do espaço onde se concentravam romeiros e romeiras, oferecia alimentos para saciar a fome de quem por ali estava.

A partilha também se fez na forma de coleta durante a celebração eucarística, que foi em benefício da comunidade local, como forma simbólica de incentivo à reconstrução. O total arrecadado foi de R$ 4.462,70.

Outro destaque muito visível na animação e na participação em geral foi a grande presença da juventude.

O encerramento da Romaria, no meio da tarde, foi com uma Missa, presidida pelo bispo da Diocese de Blumenau, Dom José Negri e concelebrada pelo bispo da diocese de Caçador e referencial da CPT, Dom Luiz Carlos Eccel. O presidente da CPT Nacional, Dom Ladislau Biernaski, também esteve presente e falou aos romeiros e romeiras. Padre Vilson Groh, que trabalha com as comunidades carentes da periferia de Florianópolis, proferiu a homilia. As palavras do Padre Vilson foram no sentido de resgatar o ânimo para a luta e para a caminhada. Segundo ele, ”não devemos alimentar a saudade do tempo em que éramos 40, 50 mil. Hoje somos nós, o resto, quem está aí para assumir. É o que temos, porém mesmo poucos já conseguimos fazer muito!”

Florianópolis, 17 de novembro de 2009

Secretaria Estadual da CPT-SC.



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