quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Dom Jacinto fala sobre Mistério pascal e crescimento espiritual

A maturidade cristã consiste na consecução do estado de homem perfeito (Ef 4, 13), no revestimento do homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade verdadeira (Ef 4, 24), como resposta total a cristo, dom pessoal de Deus à humanidade. Todo aquele que segue cristo, homem perfeito, no mistério redentor de morte e ressurreição, torna-se também mais homem (GS 41, 1), já que se torna mais semelhante a Jesus e se aproxima dele não só no que ele tem de divino, mas também no que ele tem de humano. Ora, Jesus alcançou a perfeição da humanidade na "doação" suprema da cruz, pois o que nos faz homem ou mulher é justamente o amor, o dar. O homem, que é na terra a única criatura que Deus quis em si mesma, só pode reencontrar-se plenamente através de sua autodoação desinteressada (GS 24, 3). Quem diz amor, no sentido autentico da palavra, diz cruz; e quem diz cruz – se não se trata de cruz qualquer, mas da cruz do senhor – diz necessariamente amor: a cruz é verdadeiramente a epifania do amor.

Depois da paixão de Cristo, o caminho da dor se apresenta inseparável do caminho do amor, ou seja, da capacidade de sacrificar-se pelos outros, com a convicção cristã de que todo amor humano que não é dom de si e não vem seguido, pelo menos implicitamente, do sinal e do sangue da cruz, não passa de caricatura do amor. O cristão morre com Jesus na cruz quando reconhece a fragilidade radical de sua natureza, marcada pela triste realidade do pecado, e sua pobreza humana até a raiz do ser. Colocar-se sob o sinal da cruz quer dizer seguir um ritmo de crescimento, que com grande freqüência vem marcado, em contraposição com os valores humanos do poder e da glória, pela percepção intuitiva de que a luta, o esforço, o controle, o empenho e até a frustração são necessários ao desenvolvimento harmonioso da própria personalidade. O primeiro Adão perdeu-se ao querer elevar-se acima de sua própria natureza. Ao contrário, Cristo conquistou a salvação aceitando a sua própria fraqueza de homem até a suprema impotência da morte.

Com efeito, a cruz não foi uma necessidade imposta de fora para dentro por uma divindade desejosa de compensar sua própria honra ofendida; historicamente ela é também o resultado da luta de Jesus contra seus opressores.

As grandes testemunhas da fé cristã, os santos que se conformaram em sua experiência espiritual com cristo sofredor, não permaneceram passivos diante da mudança do destino do homem, porem personificaram valores novos e originais e semearam germes fecundo de nova vitalidade. Basta pensar na mensagem revolucionária de um são Francisco de Assis, de um santo Inácio de Loyola, de um São João da Cruz, e em todo este florescimento de homens e de instituições na época moderna que se gloriam de servir Cristo nos pobres e nos pequenos (Gema Galgani, Santa Catarina de Senna).

Somente uma fé que tenha amadurecido na experiência da cruz será capaz de lançar um raio de luz sobre o mistério do sofrimento humano em todas as suas formas e de modo particular o dos inocentes; sobre o mistério do mal moral ou do pecado, com que o homem se opõe livremente a Deus em nosso mundo secularizado , que perdeu o senso da transcendência e que por meio da critica corrosiva e impiedosa pulveriza todas as concepções morais e religiosas.

Naturalmente, a cruz é um caminho, não o termo de um caminho, já que o objetivo do plano divino é o de que os homens participem da felicidade eterna da Trindade. O novo testamento nunca separa o calvário da manha da páscoa, nem a elevação de Cristo na cruz da exaltação à glória. Sobre o cristão que participa da ressurreição do Filho repousa a força de Cristo e a fraqueza se transforma em força (2Cor 12, 9)

O crescimento e o itinerário espiritual do cristão não são empreendimentos solitários, mas ocorrem na Igreja, a grande comunidade a caminho do santuário celeste, da grande liturgia da eternidade. É na Igreja, cidade nova, guardiã e matriz do universo novo, embora atuante dentro de nosso mundo terreno e perecível que Deus re-cria e re-forma o gênero humano


Dom Jacinto Inácio Flach

Bispos Diocesano

fonte: www.diocesecriciuma.com.br

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