segunda-feira, 15 de março de 2010

A campanha da fraternidade ecumênica 2010 e o componente econômico-político da fé.

Antonio Cechin e Jacques Távora Alfonsin comentam o tema da CF-2010.


Antonio Cechin é irmão marista, miltante dos movimentos sociais.

Jacques Távora Alfonsin é advogado do MST e procurador do Estado do Rio Grande do Sul aposentado.


Eis o artigo.


O lema da Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano com o tema Economia e Vida, sob o lema que recorda a advertência de Jesus Cristo ("Não podeis servir a Deus e ao dinheiro"), coloca na defensiva os discípulos da economia capitalista no que ela tem de mais caro, ou seja, de que o livre mercado é realmente livre e a principal garantia de vida e liberdade, igualmente, para todas/os.

A história parece estar teimando em contrariar essa pregação. Mesmo assim, ela tem tido a capacidade de encerrar qualquer discussão que a contrarie, ainda que o deus dinheiro continue exigindo adoração em bolsas, bancos, grandes empresas, culto em altares de cofre, guardados por seguranças garantidas pelo Estado, a lei e a policia, a um custo social extraordinariamente desumano. O apostolado ideológico explicativo dos efeitos que ele denomina sintomaticamente de "marginais", capazes de gerar desigualdade, miséria, sacrifícios cruentos refletidos em agressão à natureza, violência contra a terra, a água, o ar, o emprego e a vida das pessoas que ele explora, precisa de uma adesão publicitária grosseiramente exagerada para fazer passar por virtude o que é defeito.

Só deve aparecer como "real" o que puder ser reconhecido como lucro, a melhor prova de que a oração dos seus fiéis não deixa de ser ouvida e dá resultados. Como é deus, não tem que pedir perdão de nada. Misericórdia somente para os seus sacerdotes, aqueles que assimilam com facilidade as crises periódicas que colocam em dúvida o seu poder divino, ferindo e matando multidões. Não sofre a penitência que impõe, em tais casos. Curiosamente, atribui ao Estado essa mortificação, pela conhecida e cínica lição de que o lucro deve ser sempre privatizado e o prejuízo sempre socializado. Que a sociedade toda pene e suporte a sua natureza de acumulação por um lado e desperdício pelo outro.

Tem pela democracia e pelos Poderes Públicos o mesmo apreço que devota à sua conveniência e oportunidade de "fazer negócio". Pagar a corrupção de políticos e autoridades, assim, faz parte disso. Que tudo pareça, desde que não seja! Pareça império da lei, da moral, do direito e da justiça. Que as necessidades humanas, como as de casa e comida simulem estar satisfeitas apenas com a sua previsão legal. O pecado de quem não desfruta desses direitos é, justamente, o de não lhe prestar culto, não ter dinheiro. Que reparem esse mal, então, expulsos do “paraíso” que só esse deus proporciona.

Entre os seus adeptos, conta-se gente católica que, para atacar a Campanha da Fraternidade deste ano, advoga a estranha tese de que economia não tem nada a ver com política. A consulta ao evangelho, nesse caso, para conferir em que a fé própria de um católico pode socorrer essa tese, só pode ser feita sob o pressuposto de que a morte de Jesus Cristo não foi imposta por um julgamento sem direito de defesa (!), pressionado por poderes econômico-políticos de sua época, interessados em calar e matar quem condenava com veemência as mesmas causas de dominação que, ainda hoje, sacrificam milhões de pessoas no Brasil e no mundo todo.

Para esse tipo de opinião, gente que seguiu o exemplo de Jesus Cristo, sendo assassinada pelas mesmas causas que mataram o Filho de Deus, como Dom Oscar Romero, Frei Tito, o Padre Burnier, a freira Dorothy Stang, (para lembrar apenas alguns mártires cristãos da América Latina), não teriam morrido nem por motivos políticos, nem por motivos econômicos. A fé em Deus, justamente a força maior que os fazia condenar a política e a economia da opressão desumana que sacrifica as/os pobres do nosso continente, deve ser desconsiderada em todas essas mortes porque ela também nada tem a ver com política e economia. Daí a que a Campanha da Fraternidade não se atreva a falar nem duma nem de outra, se limite a reduzir sua proposta à uma caridade aguada de reles assistencialismo, vai apenas um passo.

A economia solidária, em boa hora defendida por essa Campanha, felizmente não segue trilha tão acanhada e estreita. É muito diferente da capitalista. É uma economia da suficiência para todas/os e não apenas para alguns. Emerge de experiências simples, de regra baseadas na sensibilidade da partilha, como aquela que saciou uma multidão com apenas cinco pães e dois peixes. Não lhe é estranho o conselho de Marx, como se tudo o que tenha saído da sua boca seja coisa do diabo, como sugere o parecer de algum católico: "de cada um segundo sua capacidade e a cada um conforme as suas necessidades."

Artesanato, pequeno comércio, galpões de catadores, novos modelos de cooperativas, micro-créditos, bancos populares, moedas "paralelas" à oficial, há o surgimento de todo um novo modelo alternativo de economia das populações pobres, crescendo e se reproduzindo sob nova inspiração, a do cuidado e do zelo com as/os outras/os, em nada discrepante do evangelho. É um modelo que acredita na árvore que nascerá do grão de mostarda, ao qual se referiu o mesmo Jesus Cristo. Ainda que sob o riso e o deboche de quem só tem fé no deus dinheiro, coloca esse no seu devido lugar, ou seja, como o meio de unir o povo e não de separá-lo, segundo o tamanho do egoísmo de cada um, como ocorre na economia que ele contesta.

É difícil? Sem duvida. Não se nota no empenho da Campanha, entretanto, alienação do tipo que caracteriza a crítica levantada contra ela. Melhor do que nós, o falecido Hugo Assmann, já nos tinha prevenido, em contexto de uma fé que não ignora o quanto nela existe de componente econômico-político:

"A mobilização de pessoas e grupos se confronta inevitavelmente com a realidade espessa e conflitiva do mundo real, onde pouco se consegue com visões generosas, visto que se requer a audácia de transitar pelo difícil caminho da mudança de instituições, rigidamente instaladas e escoradas em incríveis expedientes de poder. Nesse sentido, de pouco adiantam ardorosas denúncias, se não há propostas alternativas e se não existem meios para implantá-las ou fazê-las avançar. Ficam, então, praticamente abolidas todas as reivindicações que não conseguem transformar-se em direitos exigíveis." [1]

O que mais atrapalha a transformação dessas reivindicações em direitos exigíveis é, exatamente, os "incríveis expedientes de poder" do modelo econômico-político reacionário e conservador que predomina no capitalismo brasileiro, oportunamente denunciado pela Campanha da Fraternidade deste ano. Entre o serviço a Deus e ao dinheiro, é impossível deixar-se de notar que opção ela está propondo seja tomada pelo povo.


Nota:

[1] Clamor dos pobres e "racionalidade" econômica. São Paulo: Paulinas, 1990, p. 12/13.


Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=30547

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