terça-feira, 8 de março de 2011

O feminino que brota de Imperatriz

 “Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais!”


Entre os dias 08 a 15 de janeiro deste ano a cidade maranhense de Imperatriz, conhecida como o “Portal da Amazônia”, acolheu jovens de diversas partes do país para a Ampliada Nacional da Pastoral da Juventude. A ampliada é um espaço de encontro para avaliação e deliberação dos trabalhos realizados em nível nacional pela Pastoral da Juventude (PJ). Tempo forte de ousadia, profecia e missão. Aliás, “Missão e Profetismo” foi o tema desta ampliada.

Pela primeira vez tive a alegria e a honra de participar deste momento singular da história da PJ. Acredito que muitas pessoas tiveram a oportunidade de acompanhar essa atividade. Aliás, pela primeira vez, houve uma transmissão ao vivo pela rede mundial de computadores, o que permitiu uma maior interação entre quem estava e quem não estava em Imperatriz. Acredito também que muita gente tem se perguntado: “Mas e aí? O que Imperatriz trouxe de novo? Quais foram os pontos fortes da ampliada?” Com certeza a  ansiedade de ler o relatório, saber noticias, contemplar os frutos é grande. Quanto a isso tenham a certeza que brevemente tudo estará disponível. Muitas pessoas estão trabalhando com dedicação para que o espírito da ampliada de Imperatriz atinja, missionariamente, os “confins” do mundo. Contudo, quero também contribuir pessoalmente e dar meu testemunho do que vi e vivi em Imperatriz.
Para as pessoas que crêem e se reúnem ao redor do Ressuscitado a vida está cheia de sinais. Herdeiros que somos do povo do Êxodo, fazemos experiência de um Deus que se manifesta em nossa história, pois é o Emanuel, o Deus conosco. É daí que me vem a certeza de que Deus se manifestou em Imperatriz de modo muito forte em sua dimensão feminina. E que ninguém se assuste com a afirmação de que Deus é feminino também. Não se trata de nenhuma heresia! Se fosse assim, antes de mim, o papa João Paulo I já a teria cometido, pois ele mesmo afirmou ser Deus pai e mãe: “(...) somos objeto, da parte de Deus, dum amor que não se apaga. Sabemos que tem os olhos sempre abertos para nos ver, mesmo quando parece que é de noite. Ele é papá; mais ainda, é mãe. &ão quer fazer)nos mal, só nos quer fazer bem, a todos (...).”[1]
Para mim essa presença feminina de Deus foi percebida em diversas situações. A primeira delas relaciona-se ao nome da cidade, Imperatriz. Não podemos esquecer que é um nome feminino. Não importa muito se o nome tenha sido dado em homenagem à imperatriz Teresa Cristina. Mais do que isso, importa considerar as tantas outras imperatrizes, anônimas, que com o suor do trabalho tornaram o chão mais fecundo e feminino. Chão fecundo e feminino que produz em abundância o babaçu, o coco das mulheres quebradeiras, movimento forte de resistência e de luta. Também o babaçu esteve lá, em nossa ampliada. Aliás, esteve  lá e, pela generosidade dos jovens daquela região, está também conosco em nossa casa, pois cada um de nós recebeu um babaçu como símbolo da ampliada na celebração de envio. Na ocasião, Dom Vilson, bispo de Caxias, enfatizava a beleza do babaçu e sua importância para o povo do Maranhão. 
Também a mesa de abertura da ampliada trouxe os seus sinais. Em uma mesa onde o masculino e o eclesiástico prevaleciam, duas jovens mulheres fizeram a diferença. Uma delas era a coordenadora de um dos grupos de base. Em meio a vozes fortes, sua voz foi como brisa suave. Dizia: “sejam bem vindos à nossa cidade.” Lembrei-me da jovem de Nazaré no seu canto do magnificat: “Derrubou os poderosos de seus tronos e elevou os humildes. Saciou de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias.” A outra, baiana, negra, secretária nacional da PJ. Sua voz se fez ouvir em tantas partes do Brasil ao longo dos três anos de atividade missionária. Falava como quem tem autoridade. Recebeu aplausos, afagos, chamegos e cheiros. Também pudera! Sua inspiração vem de outra grande mulher, a sua “mainha”, que de “inha” só tem o nome, pois na vida e na história ela é “ona”, é mãezona. 
E o que dizer da inspiração bíblica da ampliada? “O meu desejo é a vida do meu povo” (Es 7,3)! Na terra de Imperatriz, quem falou foi uma rainha, Ester, mulher bela, encantadora, corajosa. Sua palavra, que já havia conquistado o coração do rei Assuero, conquistou também muitos corações durante os dias da ampliada. 
Além desses sinais, a força do feminino se fez presente em tantos outros momentos da ampliada. Na cozinha, nas diversas equipes de trabalho, nas falas, na dança, nas profecias, na missão... Até quem não estava ali presente se fez presente pela sua defesa do feminino. Foi o caso do Sandro Hilário, membro da Comissão Nacional de assessores, que em sua mensagem dizia aos candidatos à secretaria nacional da PJ que deixassem o “feminino se manifestar neles, pois não iriam se arrepender.” 
Os sinais estão aí. Prontos para serem acolhidos, compreendidos, assumidos. Nestes tempos pós ampliada tenho “guardado essas coisas no coração”, com respeito e reverência, buscando entender o que Deus quer nos dizer. À Pastoral da Juventude cabe ser profeta e profetisa do feminino. A força do autoritarismo, a irracionalidade do machismo, a prepotência das tiranias explícitas e ocultas não será vencida com os mesmos meios utilizados por “eles”, mas com a singeleza, a beleza, a leveza, a ternura e o cuidado de mulheres e homens que acolhem os sinais do feminino que vem de Deus.

Padre Wander Torres Costa
 Membro da Comissão Nacional de assessores/as da Pastoral da Juventude
Pároco da paróquia Nossa Senhora de Fátima – Viçosa / MG
pewandinho@yahoo.com.br


[1] João Paulo I,  Angelus Domini, Domingo, 10 de setembro de 1978. Disponível em www.vatican.va/holy_father/john_paul_i/angelus/documents/hf_jp-i_ang_10091978_po.html acesso em 05 de março de 2011. 

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