domingo, 1 de maio de 2011

A juventude inserida no contexto da violência urbana

Por Thalita Coelho

A violência e a criminalidade, que se tornaram dos mais recorrentes problemas urbanos no atual período é mensurado em inúmeras pesquisas e estudos, que exploram principalmente as transformações urbanas que de alguma forma contribuem para a constituição do cenário da violência nos centros urbanos. Essas transformações concretizam as cidades como centros de consumo privilegiado, espaço de imposição de uma ideologia de felicidade graças ao consumo e ao urbanismo adaptado à centralização dos meios de poder, como a informação, formação, organização, operação e persuasão (Sánchez, 2003).
Neste quadro, as redes sociais de suporte, como definiu Robert Castel, são desconstruídas ou fragilizadas, dando espaço para a constituição de vulnerabilidades sociais, que atingem os segmentos sociais mais marginalizados na sociedade, dentre os quais, podemos citar os jovens, um dos segmentos mais envolvidos pela crescente violência urbana.
A “reestruturação produtiva” da economia capitalista na sua atual fase está ligada à produção do espaço moldado às necessidades da acumulação. Na análise das sociedades urbanas, este amoldamento significa o aumento de fragmentos ou partes da cidade submetidos ao controle, normatização e privatização, de maneira que seu impacto atinja diretamente a vida social (Sánchez, 2003). Esses espaços capturados pelas relações de produção capitalista por meio da reestruturação urbana transformam-se de espaços com valor-de-uso para espaços com valor-de-troca, e destinam-se à produção (obras de infra-estrutura, de modernização tecnológica, dentre outras) ou ao consumo (turismo, lazer e consumo da cidade estimulados pela publicidade). Esta nova forma de acesso ao espaço mediada pelo mercado aprofunda a separação entre espaço público e espaço privado, acentua o processo de comercialização e especulação.
A nova ordem urbana pretende fazer impensáveis e impossíveis outras formas de viver na metrópole que sejam conflitivas com os parâmetros da cidade-mercadoria que busca consolidar. Tudo aquilo que não adere a essa dinâmica é interpretado como ingovernabilidade, como perturbação da ordem urbana que deve ser desalojada do panorama da modernização (Sánchez, 2001). Entretanto, a cidade nunca está totalmente tomada pelo poder do Estado midiático, processos constitutivos de sujeitos coletivos expressam maneiras de viver e reapropriações da cidade afastadas das previsões da ordem urbana promovida pela imagem oficial.
Na maioria das análises as representações são tornadas dominantes e cuidadosamente desenhadas para mostrar uma cidade homogênea e apagar as diferenças políticas, culturais, de classe ou de origem étnica presentes no território urbano. Deste fato surgem os discursos da cidade-pátria e do consenso-cidadão, da sociedade urbana como um bloco homogêneo sem conflitos de interesses, orientada para um grande objetivo comum, forjados no interior das políticas urbanas, com o apoio incondicional dos meios e o uso amplo de variados instrumentos publicitários que atuam como elementos importantes na regulação social e no controle político da população. Desta forma, a cidade-mercadoria, padronizada pelos mecanismos de regulação do capital, também padroniza sua atenção a uma população homogeneizada, que internamente apresenta uma série de contradições e conflitos. Desta forma, deixa de atender necessidades essenciais daqueles que não se enquadram no estereótipo de cidadãos da metrópole urbana. De acordo com Sánchez, o city marketing e a imposição de imagens urbanas tornadas dominantes contribui para o exercício da violência, especialmente em sua forma simbólica, pelas vias da comunicação e do conhecimento, violência nem sempre percebida por suas próprias vítimas e muitas vezes expressas de outras formas que não apenas a simbólica.
Quem mais sofreu com essa nova estruturação urbana foram os mais pobres, a população mais desfavorecida economicamente e com menos acesso às políticas sociais específicas e estruturais. Essa população foi cada vez mais realocada para as áreas periféricas dos centros urbanos, marcadas pela escassez de equipamentos públicos que pudessem atender as suas necessidades básicas. E esse ato aproxima ainda mais essa população das diversas formas de violência, desde a violência caracterizada pela negação dos direitos básicos dessa população, seja pela violência física, engendrada a partir de vários fatores resultantes desse modo de vida e das experiências pelas quais são obrigados a passar. É neste cenário que este artigo busca localizar os jovens contemporâneos, que vivem a fase da vida de definições e tomadas de decisão, e também, a constante tensão entre a busca de sua emancipação pessoal e a subordinação as regras de convivência da sociedade de consumo, principalmente os jovens urbanos que vivem no modelo de “cidade-mercadoria”.
city marketing influencia também a socialização dos jovens. O seu imaginário está impregnado por informações e imagens de juventude veiculadas pelos meios de comunicação de massa, que tantas vezes repetidas incorporam-se na percepção que esses jovens constroem de si próprios e do mundo. Dessa forma são assimiladas muitas das aspirações de consumo e estilos de vida estimulados por essa hegemonização transmitida pela mídia.
No mundo contemporâneo, a violência tem se tornado um fenômeno, que em casos mais extremos, fere o mais fundamental dos direitos humanos, o direito à vida, o que amplia a sua incidência e dificulta ainda mais sua compreensão. Além disso, tem se tornado cada vez mais abrangente e atingido todas as classes sociais, gêneros e gerações, ultrapassando diferenças geográficas, étnicas e políticas. A forma como atinge determinados grupos pode assumir contornos de singularidade, ou porque alguns tipos de violências são mais recorrentes a indivíduos de determinada identidade, ou porque se constituem a partir das relações que se constroem socialmente pelo exercício das relações sociais de classe, gênero, geração e etnia, por exemplo. Desta forma, o conceito de violência deve ser considerado na sua forma mais ampla, não ficando restrito aos danos físicos que podem levar à morte, mas também, o conjunto de restrições que impedem o gozo dos direitos essenciais. Por isso fatores como exclusão social, discriminação racial, violência verbal devem ter a mesma atenção que a violência física.
É, portanto necessário ampliar e refletir sobre o conceito de violência, levando em conta as várias manifestações sobre a questão, seus atores, suas vítimas, seus discursos, presumindo que a violência além de destruir fisicamente, ela devasta moralmente, mexendo com a subjetividade dos envolvidos.
Os fatores relacionados aos atos de violência atualmente ganharam contorno de uma multiplicidade, as causas estão relacionadas a diversas outras, não podem ser isoladas. Por conta deste fator, existe uma dificuldade em estabelecer relações de causalidade, principalmente quando se observa a pulverização da violência, sua banalização e sua inserção no cotidiano dos indivíduos em geral. Dentro desta realidade, a concentração da riqueza e a dificuldade de inserção remunerada no mundo do trabalho dificultam o acesso desse jovem à renda e, para a maioria dos jovens, a realização das suas aspirações incorporadas. A contradição e o choque que surgem entre os horizontes propostos pela mídia e as limitações concretas da vida real, entre elas a dificuldade de obtenção de renda, condições sociais precárias, inexistência de políticas públicas satisfatórias que promovam a inserção juvenil e possibilidades reais de construção de identidade individual e coletiva, se posicionam entre os fatores básicos que possibilitam uma explicação dos crescentes riscos de envolvimento com o narcotráfico e com outras formas de violência e criminalidade.
Nesse ciclo é notória a vulnerabilidade que alguns jovens se encontram, de forma que passam a ocupar o imaginário social na condição de vítima e de vitimizador. Os instrumentos existentes de mediação e cultura são poucos e não dão conta das demandas de atendimento aos jovens. Essa situação contribui para a construção da vulnerabilidade desse segmento diante da ação de criminosos, que acabam por buscar ajuda no crime organizado para garantir o sustento da família e de si; tornam-se os “soldados”, “aviões”, em busca de renda e de reconhecimento social (Projeto Juventude, 2004). A violência atinge a juventude também a medida que se fortalece o cenário e reforça-se o imaginário coletivo de que todo jovem pobre, morador dos espaços de exclusão é potencialmente vítima ou promotor de violência. Inúmeros dados têm comprovado que esses jovens, os que moram nas áreas mais periféricas, encontram-se em situação de ainda mais vulnerabilidade à violência e constituem uma das principais causas de morte de adolescentes e jovens.

“Segundo Waiselfisz (2007), a estrutura de mortalidade
é notadamente diferenciada entre os jovens e os
não-jovens. Enquanto as causas naturais (doenças) são
responsáveis por 27,2% das mortes entre os jovens, no
grupo não-jovem representam mais de 90,2% das causas
de mortalidade. Já as causas externas, que na população
não-jovem responsáveis por 9,8% dos óbitos,
são responsáveis por 72,8% da mortalidade entre os
jovens. Essas causas externas englobam acidentes de
transporte, homicídios e suicídios, sendo que estes
últimos, de forma isolada, são responsáveis por mais
de 61,3% das mortes dos nossos jovens.”
(LOPES, Sueli. ADORNO, Rubens de C. F. , 2008)

A esse imaginário coletivo que estereotipa os jovens das áreas mais periféricas com potencialidades de criminosos, junta-se outro, o de “correção” por meio do castigo, através do qual se legitima o uso da violência até mesmo em equipamentos socialmente criados para atendimento dessa população, como a escola, por exemplo. Essas práticas de violência socialmente produzidas e culturalmente aceitáveis violam cotidianamente os diretos sociais básicos dos jovens e instituem um viés de classe estabelecido a partir do parâmetro entre periculosidade e classe social, constituindo a cultura que estigmatiza essa população. Para amplos setores da sociedade e da mídia, as políticas públicas para a população que vive a condição juvenil, ou seja, os indivíduos com idade entre 15 e 29 anos, devem ser construídas com a perspectiva de controle, seja através da repressão direta, como por exemplo o Toque de Recolher (medida implantada recentemente em algumas cidades brasileiras) ou buscando mantê-los “ocupados”, utilizando-se de uma lógica alienante e repressora, pois desconsidera os direitos dos jovens à cultura, ao lazer, ao esporte e ao tempo livre.
Esses mecanismos afastam a juventude da busca e construção de soluções positivas para o enfretamento dessa realidade. Daí surge a necessidade de pensar em uma política pública que considere esses jovens como protagonistas, com capacidades múltiplas de intervenção na sociedade. E as políticas voltadas para a prevenção das violências devem ser inseridas no marco da inclusão e da universalização dos direitos, implementando-as sem medidas de controle repressivo, e com iniciativas de promoção e garantia de direitos.
Portanto, diante da análise de como se constituem as novas cidades a partir das reestruturações urbanas, as exigências que esse novo modelo estabelece para sua inserção permite não apenas a exclusão de parcela da população que não se enquadra aos modelos impostos e dominantes, como possibilita a construção de mecanismos que violem os direitos básicos e humanos. E os jovens estão entre os segmentos que mais são atingidos por essas reestruturações. O que evidencia a necessidade de construção e o fortalecimento das políticas públicas que encarem o jovem como sujeito com capacidades e que promovam a sua inclusão na sociedade e a sua emancipação.


*Thalita Coelho é Cientista Social e militante do Partido dos Trabalhadores.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Projeto Juventude, Instituto Cidadania, 2004.
ABRAMOVAY, Miriam. Juventude, violência e vulnerabilidade social na América Latina: desafios para políticas públicas. UNESCO, BID. 2002.
SÁNCHEZ, Fernanda. A reinvenção das cidades para um mercado mundial. Chapecó: Argos, 2003. Pag. 39 a 144.
MITSCHEN, Tomas.Crescimento, pobreza e violência em Belém. NUMA e POEMA/UFPA. 2006.
NJAINE, Kathie. MINAYO, Maria Cecília de Souza. Violência na escola: identificando pistas para a prevenção. In: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S141432832003000200009&script=sci_arttext&tlng=pt (19/12/2009 – 2h28)
ABRAMOVAY, Miriam.”A Violência Urbana e seus Reflexos na Escola”.
LOPES, Sueli. ADORNO, Rubens de C. F. , Juventude, Pobreza e Violência, São Paulo: 2008.

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